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Da lama ao mundo: o manguebeat, Chico Science e a linha da Mangbeat News

Movimento nascido no Recife em 1992 que juntou maracatu, rock e tecnologia, inspirou um polo digital e celebra o legado de Chico Science.

Por Redação Mangbeat News·

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Imagem: Mangbeat

Em 1992, no Recife, o músico e jornalista Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A, escreveu com o DJ Renato L o manifesto "Caranguejos com Cérebro". O texto descrevia uma cidade em colapso social, que precisava de uma "descarga de energia", e propunha uma imagem que virou símbolo de uma geração: uma antena parabólica fincada na lama do mangue, captando sinais do mundo inteiro. Ali nascia o manguebeat, e é dele que a Mangbeat News tira a sua forma de olhar para a cultura.

A Mangbeat News, Página de notícias da Bluversy, cobre música, animação, motion, arte e tecnologia. A escolha de editorias segue a lição do mangue: não separar a tradição da máquina, nem o local do global. O que interessa à redação é o ponto em que um tambor de maracatu encontra um sintetizador, em que uma vinheta animada carrega um território, em que uma ferramenta digital vira linguagem artística.

O nome mais conhecido do movimento é o de Chico Science, nascido Francisco de Assis França em 13 de março de 1966, no bairro de Rio Doce, em Olinda. Criado entre o hip hop, o funk, o soul e as tradições pernambucanas do maracatu, do coco e da ciranda, ele liderou a Chico Science & Nação Zumbi. Em vida, a banda lançou dois discos de estúdio: "Da Lama ao Caos", em 1994, e "Afrociberdelia", em 1996, este com a releitura de "Maracatu Atômico", de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, e participações de Gilberto Gil e Marcelo D2 em "Macô".

O impacto foi imediato. Em obituário de fevereiro de 1997, o jornal britânico The Guardian comparou o efeito de "Da Lama ao Caos" no Brasil ao dos Sex Pistols no Reino Unido. O The New York Times escreveu, na mesma época, que Chico era amplamente saudado como o futuro da música brasileira. Em 2008, a Rolling Stone Brasil colocou o cantor em 16º lugar na lista dos maiores artistas da música brasileira.

A banda levou o mangue para fora do país ainda nos anos 1990. Em 1995, estreou nos Estados Unidos no festival SummerStage, no Central Park, em Nova York, abrindo para Gilberto Gil e dividindo o palco com ele no bis. Tocou também em casas como o CBGB e o SOB's, fez turnês por sete países europeus e gravou "Maracatu Atômico" para a coletânea beneficente "Red Hot + Rio", de 1996, dedicada ao combate à aids. Segundo o Diario de Pernambuco, a terceira turnê internacional, com o Japão no roteiro, já estava em preparação quando Chico morreu.

Chico Science morreu em 2 de fevereiro de 1997, aos 30 anos, em um acidente de carro na divisa entre Recife e Olinda. A Nação Zumbi seguiu na estrada, lançou o póstumo "CSNZ" em 1998 e, segundo a Folha de Pernambuco, ampliou a repercussão internacional da banda nas décadas seguintes.

O efeito do manguebeat não ficou restrito à música. O Porto Digital, parque tecnológico criado no Recife em 2000, é apontado por seus próprios fundadores como herdeiro do movimento. O cientista Silvio Meira, um dos criadores do Porto Digital e do Cesar, disse à Fast Company Brasil que a convivência com a cena mangue foi fundamental para acreditar que era possível fazer trabalho de nível mundial a partir do Recife. "Nos encontrávamos em todos os bares", afirmou. O designer H.D. Mabuse, cofundador do manguebeat e autor de cartazes e capas do movimento, hoje pesquisador do Cesar, defende que aquele ecossistema de tecnologia nasceu do projeto sociocultural do mangue. Segundo a Fast Company Brasil, o parque reunia cerca de 350 empresas e 15 mil pessoas, com faturamento de R$ 3,67 bilhões em 2021.

A ideia de uma periferia conectada, que recebe o mundo e devolve a sua própria versão dele, segue atual. O festival Bienal no Mangue, parte da programação da 36ª Bienal de São Paulo, levou em novembro de 2025 o manifesto de 1992 ao Pavilhão do Ibirapuera, com shows de BUHR, Maciel Salú e Mundo Livre S/A. Em março de 2026, os 60 anos de Chico Science foram lembrados no Recife, onde ele dá nome a teatro, túnel, avenida e escolas, e a Folha de Pernambuco aponta artistas como BaianaSystem e Barbarize como continuadores daquelas ideias.

O próprio Fred Zero Quatro reconhece que o terreno mudou. Em entrevista à CartaCapital em 2022, nos 30 anos do movimento, ele avaliou que a internet provocou uma "hecatombe" na indústria da música e resumiu o momento: "hoje quem manda é o algoritmo".

É nesse cruzamento entre mangue e algoritmo que a Mangbeat News se coloca. Nas próximas edições, a Página acompanha quem segue fincando antenas na lama: artistas, animadores, designers e desenvolvedores que fazem cultura com tecnologia, a partir de onde estão, para o mundo inteiro.

Fontes Fast Company Brasil: Porto Digital e os 30 anos do Manguebeat · Folha de Pernambuco: Chico Science 60 anos · Diario de Pernambuco: Como Chico Science se tornou um cidadão do mundo · CartaCapital via Outras Palavras: Trinta anos de Manguebeat, por Fred Zero Quatro · 36ª Bienal de São Paulo: Festival Bienal no Mangue · The Guardian, obituário de Chico Science (17/02/1997, reprodução)

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